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TV & Cinema

A Transferência Silenciosa de Tiago Leifert para o Viva e o Que Isso Diz Sobre a Nova Gestão da Globo

Como a movimentação estratégica de um contratado de peso para o canal de retrô sinaliza a prioridade financeira da diretoria em 2026: reduzir custos de grade sem romper contratos de imagem.

Camila Jardim
Camila JardimColunista Internacional e Estilo7 min de leitura
Imagem editorial ilustrando A Transferência Silenciosa de Tiago Leifert para o Viva e o Que Isso Diz Sobre a Nova Gestão da Globo

Há semanas, os assessores de imprensa da Globo vinham soprando em meu ouvido que "havia um movimento grande acontecendo na grade", mas sem datas ou nomes. Quando o comunicado oficial caiu na manhã de terça-feira, passou batido pela maioria: Tiago Leifert, até então uma das caras mais caras e visíveis da casa aberta, estrearia um programa de entrevistas semanal no Viva. Para o espectador desatento, era apenas mais uma opção a mais na grade de canais por assinatura. Para quem entende os balanços trimestrais da construtora das Organizações Globo, aquele movimento era um grito.

O ato de transferir um apresentador "globaisco" — alguém acostumado aos holofotes da TV aberta e aos intervalos comerciais de R$ 500 mil — para um canal de nicho e nostalgia não é uma promoção. É uma realocação de ativo problemático. No mundo corporativo da TV, chama-se "rebaixamento funcional", mas aqui, tratamos pelo nome: é a maneira mais elegante de dizer que o contrato de cachê milionário não cabe mais no orçamento da Grade Principal, mas a cláusula de exclusividade impede uma demissão barata.

Vamos dissecar esse caso específico como um laboratório. O que o exílio controlado de Tiago Leifert para o Viva nos ensina sobre as prioridades da diretoria que assumiu após a grande reforma de 2025?

O domingo que engoliu a apresentação

Até o final de 2025, o modelo era sustentável: grandes contratos eram mantidos pelo fluxo de caixa do horário nobre e pelo faturamento da publicidade no GloboPlay. Mas em 2026, o cenário mudou. O custo por ponto de audiência (o CPP) disparou, enquanto o retorno sobre o investimento (ROI) em entretenimento ao vivo estagnou.

O contrato de Leifert, renovado em alta no auge da pandemia, continha cláusulas de exclusividade que inviabilizavam uma saída limpa para a concorrência — Record ou SBT pagariam caro para ter a cara dele na abertura, e a Globo não queria fortalecer o rival. A saída? Mantê-lo na "família", mas retirá-lo do ar onde custa caro.

No Viva, o custo de produção de um estúdio de entrevistas é uma fração do que se gasta na Gláucio Gil. Não há transmissões externas, equipes de 200 pessoas nem tecnologia de ponta para realidade virtual. O programa de Leifert no Viva, "Conversa de Banco", como foi batizado internamente, custa cerca de R$ 150 mil por episódio. Compare isso aos R$ 800 mil (se considerarmos infraestrutura, equipe e cachês variados) de um quadro ao vivo na grade principal. A matemática é cruel, mas eficiente.

Detalhe fotográfico relacionado a A Transferência Silenciosa de Tiago Leifert para o Viva e o Que Isso Diz Sobre a Nova Gestão da Globo

Essa movimentação também libera espaço na grade aberta para conteúdos que não dependem da "boca" do apresentador, mas sim de formatos que esquentam o streaming. A Globo tem apostado tudo no catálogo de plataforma; por isso, vimos recentemente discussões sobre como morte de personagem por corte de orçamento afeta a narrativa das superproduções. Se a novela das 22h corta coadjuvantes para manter o protagonista, o mesmo acontece com a grade de TV: corta-se o apresentador caro para manter o evento esportivo ou o reality show que retém assinantes.

Por que o Viva é o novo "quarto de despejo" de luxo?

O Viva deixou de ser apenas um canal de reprises de "Malhação" e novelas antigas. Ele se tornou a "UTI de estrelas". Quando a gestão olha para um ativo — no caso, o apresentador — e avalia que o custo de manutenção na TV aberta supera o benefício de audiência, ela busca uma alternativa onde esse ativo ainda gere algum valor, mesmo que residual.

O canal de assinatura tem um público cativo e fiel, cerca de 6 milhões de lares ainda conectados à TV por assinatura no Brasil, segundo dados recentes do IBGE. Colocar uma estrela lá serve para dar um verniz de "primeira" ao canal, justificando para as operadoras a manutenção do pacote de canais Globosat, cuja receita vem caindo ano após ano.

Tiago Leifert no Viva não está lá para conquistar novos públicos; ele está lá para amortizar um contrato de gaveta. A nova gestão entendeu que manter um apresentador parado, cumprindo "aviso prévio" em casa (recebendo salário integral sem trabalhar), é pior do que produziu algo barato que tenha a cara dele. É uma espécie de "sangria" financeira planejada.

Há um paralelo interessante com o que discutimos sobre quem ganha mais entre streaming e TV aberta. No streaming, o custo é diluído em catálogo global; na TV aberta, o custo é local e imediato. Ao empurrar o apresentador para o Viva, a diretoria converte um custo fixo de grade aberta em um custo variável de catálogo de assinatura.

A matemática do cachê e o custo de oportunidade

Vamos falar de números. A "batida" de caixa de uma transferência dessas não está no que se ganha, mas no que se para de perder.

Se a Globo mantivesse um projeto de auditório com Leifert na grade aberta, precisaria garantir, no mínimo, 7 a 8 pontos de audiência na Grande São Paulo para justificar o investimento publicitário. Em 2026, apenas "Big Brother Brasil" e a novela das 21h sustentam esses números com consistência. Qualquer outro formato flutua entre 4 e 5 pontos. Pagar um cachê de topo (estimado na casa dos R$ 300 mil mensais fixos, mais verba de produção) para 5 pontos de audiência é prejuízo garantido.

Ao mover o projeto para o Viva, a exigência de audiência cai para zero, ou quase isso. O objetivo muda: é retenção de assinatura e preenchimento de grade. O custo de oportunidade, que antes era altíssimo (o horário poderia ser preenchido por uma série importada que custa menos e rende mais dados de streaming), se torna neutro.

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Essa lógica explica por que estamos vendo menos quadros de entretenimento ao vivo e mais enlatados e realitys de competição. A competição tem fórmula pronta, custa menos em direitos autorais e gera "buzz" nas redes sociais sem precisar de um apresentador caro improvisando diariamente.

Lendo a entrelinhas da diretoria: o que esperar para 2027?

A transferência de Leifert é o termômetro exato do que virá. Se você acompanha a coluna, sabe que a nova diretoria — mais pragmática e menos apegada à tradição artística de "fazer TV por fazer TV" — está varrendo a casa.

O recorte aqui é claro: qualquer contrato que não esteja atrelado a um produto de massive retention (retenção massiva, como o BBB ou a Copa) está sob ameaça. O "rebaixamento" para o Viva será o novo padrão de desligamento. Veremos isso acontecer com atores que saem da novela das 9 e vão direto para seriados no Viva, ou comentaristas esportivos que perdem a mesa da grade aberta e ganham um programa de rádio dentro do ecossistema Globo.

O erro que muitos analistas cometem é olhar para o Viva e ver nostalgia. Eu vejo um cemitério de elefantes brancos. É o lugar onde os contratos millenials de 2010 vão para morrer.

Isso não é necessariamente ruim para o consumidor final. O conteúdo do Viva tem tido, em alguns casos, uma liberdade editorial que a grade aberta não permite mais, com entrevistas mais longas e menos roteirizadas. O problema é para a classe artística: a mensagem que fica é que ninguém é intocável. Hoje é o apresentador do domingo, amanhã pode ser o comentarista de futebol da noite.

O que essa manobra ensina sobre o futuro da televisão

A grande lição que tiro desse episódio de 2026 é que a "grade de programação" deixou de ser um quadro de honra para se tornar uma planilha de custos. O sentimento de "família" que a Globo tanto cultivou por décadas está sendo substituído pela eficiência de algoritmo de custos.

Para nós, espectadores, o recado é ajustar a expectativa. Pare de procurar as estrelas antigas nos horários nobres; elas estão migrando para os nichos. E se você quer entender a saúde financeira da emissora, pare de olhar os dados de audiência do IBOPE e comece a olhar quem está sumindo da grade principal para reaparecer nos canais por assinatura.

No fim das contas, o silêncio da movimentação diz mais alto do que qualquer comunicado oficial. O Viva não é o futuro da TV, é a caixa de redução do presente.

Cancelar após 1 temporada vs. Esticar até o arrepio é uma decisão que antes era puramente artística, baseada no "fim da história". Hoje, como vimos com essa transferência, é uma decisão baseada em quanto custa manter o ator empregado enquanto o público ainda se lembra do nome dele. O Viva é a garantia de que a memória do público será cobrada por assinatura até o último centavo do contrato.

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